Desde Homero e Sócrates – séculos VIII e IV a.C., respectivamente – até chegarmos contemporaneamente ao médico francês Philippe Pinel – reconhecido como pai da psiquiatria, Michel Foucault, Nise da Silveira, entre tantos outros nomes das ciências e das ideias, o tema loucura sempre foi objeto de vivo interesse. Discutido pela filosofia, medicina, psicologia, ciência do direito, também movimenta opiniões e reflexões teológicas, da crítica literária, da antropologia, etc. A loucura é conteúdo de estudos de muitos saberes, alimenta linhas e tendências do pensamento de todos os matizes.
Nas poéticas também é tema recorrente, e suscita debates acerca dos limites entre o que é insanidade e o que é arte, entre o “louco” e o “gênio”.
Com relação às concepções artísticas mais gerais, o critico literário Paulo Polzonoff Jr, diz que “o louco, antes de ser um caso para psiquiatras, representa no imaginário universal o homem em todas as suas possibilidades”. Esta é uma das razões para as artes ocidentais estarem repletas de personagens consideradas “loucas”.
Pinçando apenas um ou outro exemplar do universo ficcional, é interessante citar a criação de William Shakespeare, que povoou sua genial obra com algumas criaturas “loucas”, entre elas: Henrique IV - o chamado Rei Louco, Hamlet e Ofélia. Shakespeare ainda ilustrou a demência destruidora através de Lady Macbeth. Kafka nos presenteou com personagens com algum desequilibrio: Josef K de “O processo” e Gregor Samsa de “A metamorfose”. Oscar Wilde pintou um Dorian Gray envolvido com a busca delirante da perfeição impossível. Da infinidade de personagens alucinadas, provavelmente a mais emblemática para demonstrar a “loucura” – fértil diga-se – seja Alonso Quijano, ou melhor, o sedutor, apaixonante e “muinobre” Dom Quixote.
Nas nossas letras portuguesas, devem ser assinaladas como acometidas pela “insanidade”, personagens igualmente vultosas como Antônio Conselheiro de Euclides da Cunha em “Os Sertões”. O machadiano “Alienista”, Simão Bacamarte, é um exemplo mais que perfeito da personagem “louca”, assim como o dito Major Quaresma, personagem central de “... Policarpo Quaresma” de Lima Barreto. A mãe e a filha de Sorôco, criaturas do imaginário de Guimarães Rosa, também merecem figurar no rol de “gente louca”.
Gênios também não faltam na categoria “criadores desequilibrados”. O mago dos pincéis, Vincent Van Gogh, que viveu uma vida marcada por fracassos, revelou nas cores e nos traços, a turbulência e a perturbação que o levaram, aos 37 anos, abater-se diante da doença mental... suicidou-se. O próprio Lima Barreto teve vida atribulada por causa do alcoolismo. Em função das crises de depressão, foi internado inúmeras vezes em instutição psquiátrica. Diagnóstico: neurastenia. O compositor e pianista Ernesto Nazareth, um dos grandes nomes da música brasileira, manifestou problemas mentais na idade adulta, mas não deixou de criar. Morreu afogado três dias após ter fugido do manicômio de Jacarepaguá. Um exemplo interessante do que pode ser considerado interface do louco e/ou gênio, é Arthur Bispo do Rosário, “o senhor do labirinto” , que viveu mais de 50 anos internado. Bispo do Rosário tido como esquizofrênico e paranóico pela psiquiatrica oficial, “revelou-se” um artista vanguardista, comparado a Marcel Duchamp, pela intelectualidade.
É! Esses homens (insanos?) e suas crias (desatinadas?) constroem um mundo maravilhoso e (ainda!) insondável.
Historicamente, acerca do entendimento e trato do que seja “louco”, as disputas intelectuais tendem a fixar uma visão parcial sobre insânia e racionalidade, como se essas dimensões fossem simplesmente antagônicas ou excludentes; como se o “ser” considerado “demente” rompesse sua ligação com a realidade. Tanto “no popular” quanto na órbita das ciências há consenso quanto a dificuldade em se conceituar “o que é loucura”. Um arco de possibilidades – de definições alegóricas às teorias de exclusão – se abre diante de qualquer investigador.
Numa extremidade desse arco, argumentações científicas “clássicas”, explicam a “doideira” como a “condição da mente humana” que se caracteriza por “pensamentos considerados "anormais" pelo social. É a crença da ciência psicológica – e outras – para, muitas vezes, usar procedimentos de busca da cura, através de ações coercitivas, de privação, de isolamento, de eletrochoque, lobotomia, etc. Esse pensamento, que não está totalmente relegado ao passado, indistintamente cataloga tudo como loucura, reunindo no mesmo escaninho, graves patologias – até as irreversíveis, com depressões, carência afetiva, possessão e toda sorte de “males menores e diversos”, provocando uma horizontalização da “doença”.
Na outra ponta, verifica-se a defesa de posturas e visões mais “humanitárias”. A luta antimanicomial por exemplo, inspirada no movimento homônimo promovido por Franco Basaglia (1), na Itália na década de 1960, é extensão do pensamento que quer contribuir para quebrar paradigmas. Assim como o trabalho de Nise da Silveira e o Museu de Imagens do Inconsciente – entre outros – também combatem a agressividade do tratamento psiquiátrico tradicional, guardião que é – o Museu – de rico acervo artístico criado por esquizofrênicos
É sobre a (ainda!) “indecifrável” loucura que o Bossa quer falar.
Não o “conceito doente” adotado pelas instituições. Nem se trata de defender teses. Muito menos terá a pretensão, o próximo trabalho, de ser didático ou contrapor acepções. Também não é acerca do criador que queremos falar, mas sobre a criatura e seu “universo delirante”.
Dizer da loucura sem falar de distúrbios, desequilíbrio mental, doença, alteração, devaneios alucinantes, insanidade dolorosa. O BossaNossa não pretende cantar/contar a insânia geográfica: “aquela” que É em uma cultura, e NÃO É em outra. Não pretende também tomar a “loucura” como surto ou camisa de força, nem dizer da segregação e do confinamento impostos. A imagem da “loucura” que o Bossa quer mostrar, certamente, não é aquela estampada por Angelo Bronzino em seu “Alegoria do Triunfo de Vênus, expressão terrível das trevas e dos meandros tormentosos do homem.
Então que “loucura” interessa ao Bossa falar no espetáculo de 2010?
Sem necessidade de recorrer a questões conceituais mais elaboradas. Sem a obrigação de convocar notáveis para expor tratados sobre o tema. Uma idéia – lato sensu – acerca do que é loucura, extraída de textos, estudos e pesquisas em referencial teórico específico, sinalizou o norte para onde deveríamos rumar. Uma noção sem excesso de cientificismo.
Sobre o lado lírico da loucura é que se quer cantar. Nada do perverso ou amedrontador. É a “aberração” que se desenha e se projeta através da poesia comum, própria de cada um, que nos interessa. A conduta que o homem – e só ele! – impõe apenas para si. A coisa dúbia: “o lado bom” da ambigüidade! O estado da alma cuja dimensão transcendente. O delírio que reinventa o sentido da vida. A insanidade que se camufla em contemplativa, mas que revoluciona por dentro. Desvario que nos faz entrar em contato com outros níveis e grandezas de nós mesmos. Loucura como dignidade às avessas do “socialmente acolhido” O desatino de quem não abre mão de carregar sozinho o fardo da existência. A loucura que queremos contar é aquela – segundo os gregos – provocada pelas musas que inspiram a criação na arte. Loucura que o mundo se lamenta de não ostentar para ser um pouco melhor.
É nesse universo que o Bossa quer imergir na sua próxima construção artística. É com a densidade dessa “loucura” que o grupo quer envolver-se no próximo trabalho.
Reconhecendo que o campo das estimulações sobre o tema, para se construir arte, tem proporções oceânicas, o Coro Cênico BosaNossa escolheu como inspiração, como fator provocador de sua criação, a riqueza do conto “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa. O texto de Rosa – foco de uma infinidade de investigações literárias, filosóficas, artísticas, etc. – além da excelência da prosa, narra uma história pungente, dramática, humana, repleta de significados e interpretações:
“Guimarães Rosa, como uma esfinge moderna, parece desafiar o leitor a uma “decifração” sisífica de sua obra, posto que se trata de uma leitura inacabada, um eterno vir-a-ser, como a própria vida” .
O Coro Cênico BossaNossa pretende, como produto artístico, apresentar a visão multifacetada sobre “loucura”, de um coletivo de criadores; visão esta provocada pelo conto rosiano, que transpassa as margens do papel; fustiga a normalidade regulada e aceita; instiga os sentidos... e nos faz cúmplices.
Isso é o que interessa ao coro: a fruição dessa “loucura” e seu compartilhamento com o espectador.
Titulo do livro de Luciana Hidalgo, editado pela Rocco
Rosângela Ap. Cardoso (UFG) “Sísifo na Terceira Margem do Rio”.