Com o propósito de contribuir para a discussão
acerca da natureza do coro cênico - através do
viés do teatro e sem pretensão de contemplar a
extensão do assunto - as questões aqui assinaladas
foram levantadas a partir de observações sobre
outros trabalhos, de pesquisa acerca da atividade em fontes
variadas, mas principalmente através do olhar permanente
sobre a prática do Bossa Nossa. As contribuições
- estribadas no trabalho de pouco mais de quinze anos como diretor
cênico do Bossa - mais que esboçarem uma maneira
de definir e aplicar um conceito de cena e canto coral, reitero,
são provocações, pontos de partida para
reflexões acerca do tema unicamente através da
perspectiva teatral.
CORO CÊNICO é uma noção em processo
de elaboração, uma "definição"
em progresso, uma idéia que arrisca conceituações
buscando fundamentos no estudo da evolução do
coro grego - vertente na qual o ocidente navega - mais precisamente
a partir da manifestação cerimoniosa - rito -
que já na fase pré-trágica associava o
canto ao recitativo. Se atentarmos também para a magia
e animismo dos rituais e cultos que estão na origem do
teatro asiático, verificaremos que a mesma associação
já se fazia presente. Entretanto mesmo atestando esse
consistente nascedouro, esse rico lastro, essa paternidade significativa;
mesmo admitindo as interseções na linha musica/teatro
(ópera/opereta, music hall, teatro musicado/teatro musical,
etc.) a que podemos atribuir propriedades inspiradoras/motivacionais
do coro cênico, o campo de conhecimento mantém-se
inexplorado. Sobre o assunto praticamente não existe
literatura. Os minguados estudos científicos, as escassas
contribuições acadêmicas ou opinativas,
restringem-se basicamente a olhar o coro cênico através
da perspectiva musical. Um coro, seja ele de que natureza for,
está, na quase totalidade dos casos, vinculado a um único
profissional - o maestro. O regente invariavelmente concentra
em si o processo de ativação e desenvolvimento
de um coro em todos seus desdobramentos.
O que é possível garimpar - em território
quase desértico - acerca de coro cênico, resume-se
a ementas, entrevistas, programas de espetáculos, propostas
de oficinas, mini-cursos, raríssimas pesquisas acadêmicas,
internet. O conteúdo recolhido dessa "literatura"
revela algumas apropriações e aplicações
feitas pela prática coral, do que é específico
da arte cênica. Todavia no que tange à cena, as
argumentações sinalizam precários e superficiais
eixos de análise acerca do que anunciam os princípios
mais gerais da expressão artística teatro.
Qualquer site de busca para capturar "coro cênico"
oferece uma quantidade - significativa - de referências
que atinge a marca de três dígitos. Entretanto
os paradoxos sobre o tema aparecem de imediato, sem a necessidade
de se rebuscar muito nenhuma pesquisa nesse "universo".
Alguns deles: há agrupamentos corais que propõem
o desenvolvimento coral cênico através de exercitação
a partir da "articulação das palavras, utilizando
a expressão corporal e facial" com a finalidade
de "desenvolver nos participantes uma interpretação
expressiva da música"; disciplinas curriculares
de "coro cênico" praticamente podem ser condensadas
numa única ementa que invariavelmente oferece a prática
musical coralística, aplicada ao teatro, como instrumentilização
para outras disciplinas de "música e ritmo".
Quando há necessidade de seleção de interessados
em participar desse tipo de trabalho, a escolha passa pela avaliação
da aptidão do candidato além de "entrevista,
análise da extensão da voz, afinação,
ritmo, memorização de melodias e coordenação
motora para cantar e dançar ao mesmo tempo". Outros
corais cênicos, após fundamentarem substancialmente
a parte musical a ser desenvolvida, acrescentam que utilizarão
nos seus espetáculos "elementos de linguagem cênica
e expressão corporal"; na mesma direção
há grupos que "através de arranjos originais
(...) e com o aproveitamento natural e consciente do corpo desenvolverá
uma proposta estética única, numa clara integração
das artes"; a interface cênica de um coro pode se
traduzir também "na transposição para
o cenário e os próprios corpos dos cantores a
força das composições escolhidas...";
há trabalhos onde a proposta do cênico é
desenvolvida "pelo próprio grupo e a regente, desde
a pesquisa do tema e repertório, roteiro, figurino, textos,
proposta cênica, cenário"; há também
quem atribua a denominação de "coro cênico"
ao próprio trabalho porque este "valoriza a movimentação
e expressão corporal, utilizando-se de figurinos para
retratar cada época de suas canções".
Singulares são os programas de capacitação
que investem na especificidade da cena adensando o conteúdo
do trabalho: "desenvolver a linguagem cênica do grupo
coral (...) exercício de construção do
"personagem" (...) exercícios de integração,
desinibição e expressividade, dinâmicas
de grupo, jogos cênicos (...) aliado à expressividade
vocal (...) também discute com os participantes sobre
os recursos artísticos utilizados pela indústria
do espetáculo, tais como a cenografia, iluminação,
figurino, efeitos sonoros, projeção etc"
Diante de um panorama impreciso, a primeira coisa a se fazer
é desativar determinadas armadilhas pré-conceituais.
Não é pelo simples fato de se estar no espaço
de representação que qualquer manifestação
é cênica. Não bastam noções
de "marcação" no espaço cênico
para que a atividade seja assim considerada. Não se pode
atribuir a classificação "cênica"
à movimentação no palco - ou em qualquer
espaço tornado cênico - que ostente um figurino
ou se utilize de equipamentos técnicos disponíveis.
Essas "explicitações do cênico"
são equivocadas. Contra interpretações
dessa natureza opõe-se o peso da história do teatro.
Quando Anatol Rosenfeld alerta que "o teatro é arte
de direito próprio" está, ao mesmo tempo
rebatendo a visão equivocada e potencializando a arte
específica da cena. Sinaliza assim com conquistas de
mais de 2.500 anos de história. O que Rosenfeld afirma
é que teatro é uma arte estruturada através
de teorias e princípios próprios; em fundamentos
e estéticas específicas; em técnicas e
métodos, procedimentos e processos próprios e
específicos.
Sendo assim, uma expressão de arte "de direito próprio"
como é o teatro, o que é levado à cena
em seu nome, considerando o modelo clássico ocidental,
deve contemplar princípios e fundamentos dessa arte,
alguns deles: o trabalho com o texto (em sentido múltiplo)
e todas as potencialidades intencionais; a unicidade conceptual,
a estética; métodos e procedimentos de construção
da personagem; o desenvolvimento das "ferramentas"
daquele que representa: corpo, voz e criação;
o máximo aproveitamento dos recursos técnicos;
as criações cenográficas e de figurinos,
além do aparato não visto pelo público
que acontece com intensidade da concepção a realização
do espetáculo. Dessa maneira, do ponto de vista teatral
ou da expressão que tenha interface com o teatro, não
basta estar no palco para que a manifestação seja
cênica, entre outras exigências é necessário
que haja ação dramática. O coro cênico
não goza prerrogativa diferenciada.
A idéia de que estando no palco qualquer ação
é cênica ou que a simples movimentação
no espaço cênico é ação, nos
remete como declara Patrice Pavis, a uma definição
rudimentar de ação: " seqüência
de fatos e atos que constituem o assunto de uma obra dramática
ou narrativa". Pavis diz que essa definição
é "puramente tautológica, visto que se contenta
em substituir "ação" por atos e fatos,
sem indicar o que constitui esses atos e fatos e como eles são
organizados no texto dramático ou no palco".
Ação é matéria prima da arte que
vai à cena. Substrato do ato de interpretar, da representação.
Ação dá sentido ao universo da personagem
e materializa-a. Ação acontece em todo processo
cênico, da transposição do plano bidimensional
do texto para o plano tridimensional na concretude da personagem
no espaço cênico.
Numa breve síntese teórica, fundada em teatrólogos,
ação é o movimento - qualquer que seja
ele, físico ou não - que resulta do empenho da
vontade em direção a um fim articulado pelo conhecimento.
A preocupação em esquadrinhar a essência
da ação cênica em todas as teorias e métodos
desde a Poética de Aristóteles, é objeto
de estudos obrigatórios de todos envolvidos com as artes
em cena. Tomar a ação cênica como mero sinônimo
de movimentos e atos apenas, em se tratando de coro cênico,
é realizar um trabalho de "ilustração"
da canção somente. Se não for dimensionada
por igual às duas linguagens, se o binômio musica/teatro
não for equacionado do ponto de vista teatral, dificilmente
será alcançada a essência do "cênico".
A equiparação do peso das linguagens, a ênfase
na necessidade do equilíbrio e aprofundamento, além
da perspectiva intercambiante entre música coral e teatro
significa buscar alicerces para o coro cênico.
Esse necessário nivelamento não deve ser entendido
como uma tentativa de inversão de prioridades, é
antes um rumar para outro norte com a intenção
e propriedade de se traduzir e adaptar para a modalidade coral
cênica o que já se sabe e já se conhece
há muito acerca de teatro. Para efeito de interface do
coro, a acepção de interpretação,
por exemplo, ou de qualquer outra função "exclusiva"(?)
do teatro, não deve pretender a profundidade nem a densidade
dos mesmos conceitos aplicados ao espetáculo teatral,
uma vez que o produto artístico em questão é
diferenciado, necessitando re-elaborações para
sua maturação. Aconselhável é não
emagrecer os processos "tectônicos" da arte
cênica "casada" com o canto coral, nem "queimar
etapas" técnicas e criativas, muito menos caminhar
a reboque.
No Bossa há organização, estrutura e funções
definidas. A coordenação do grupo, os arranjos
e a direção musical são responsabilidades
do maestro José Gustavo Julião de Camargo - também
compositor; eu respondo pelo "cênico" e algumas
linguagens que integralizam a cena: iluminação,
figurino e cenografia. Para nós coro cênico é
a imbricação de duas linguagens - uma hibridização
- onde teatro e canto coral compõem-se com equivalências
iguais, sem predomínio de uma sobre outra. Nessa composição
orgânica, a musica é ponto de convergência
- é necessário afinar, timbrar; a cena é
divergente - do caos à ordenação, da improvisação
à marcação. Isso exige que a proposta artística
para o espetáculo, seja de tal maneira integrada que
ora a criação coral (que pode ser obra originária
ou obra derivada) pode determinar o foco da encenação,
ora a proposta cênica pode sugerir o "tratamento"
à música ou mesmo há a possibilidade da
convergência das virtualidades cênica e coralística.
Vale dizer também que quando é preciso os naipes
estarem juntos, destacarem-se ou qualquer outra necessidade
para se privilegiar um solo ou qualquer passagem musical, a
cena deve favorecer essa necessidade, do mesmo modo quando a
cena "hipertrofia" uma intenção ou pretende
frisar uma interpretação, enfatizando o crescimento
da ação dramática, o "arranjo"
se amplia, funde-se a ela, se prolonga, coroa a cena. Esse "casamento"
sempre resultou produtivo, equivalente, expressivo e intencional
tanto musical quanto cenicamente.
No Bossa o maestro concentra a responsabilidade sobre a música
e o diretor cênico responde pela cena. Dessa maneira,
se existe uma partitura musical a ser trabalhada, existe também
uma partitura cênica a ser desenvolvida. Embora ambas
produzam uma única concepção de espetáculo,
são independentes e complementares para o produto artístico
"coro cênico". As áreas de música
e teatro podem influenciar uma a outra como também podem
trocar, sugerir, modificar, conceber, opinar, solicitar, mas
cada uma assume suas características próprias
na criação.
Do ponto de vista da articulação e equilíbrio
das linguagens não é todo coro que pode pretender
ser cênico, uma vez que, mais do que concessão,
deve prevalecer uma nova mentalidade coralística, de
outra forma, a interface cênica ficará comprometida.
Para a efetivação de um coro cênico dentro
de uma nova mentalidade coral, vontade não é suficiente
se não houver predisposição, estudo e pesquisa.
Nesse perfil diferenciado, intencionalmente não incluo
pendores, talento ou aptidão, mas simplesmente vocação.
Para efeito desta contribuição, "vocação"
é entendida como a forma através da qual o coro
quer assinar a carta de sua existência, a maneira pela
qual deseja que sua história, no todo ou em parte, seja
reconhecida. Esse status vocacional está mais identificado
com o "projeto de vida" do coro do que com a excepcionalidade
de vozes ou performance do conjunto. A vocação,
ainda neste caso, pressupõe a necessidade do coro registrar
no seu trabalho a insatisfação e inquietude próprias
do pesquisador, o rigor e a disciplina do estudioso além
do exercício permanentemente da auto-crítica.
No Bossa uma das primeiras decisões, que a opção
pela concepção e estética coral cênica
provocou, foi a substituição do maestro - aquela
figura à frente do coro - pelo regente de palco, um integrante
do grupo, um participante do espetáculo com lastro musical,
habilitado e designado pelo maestro diretor, para a função
de conduzir musicalmente o coro.
Dessa maneira - iniciativa do maestro responsável pelo
conjunto - começou a história do Coro Cênico
Bossa Nossa.